Maio foi marcado por movimentos regulatórios relevantes e por dados que ajudam a entender para onde caminha o ecossistema de pagamentos na América Latina. Estas foram as notícias que definiram a agenda do mês:
O Banco Central do Brasil atualizou suas regras para operações com criptomoedas e seu presidente comentou sobre a relação entre Pix e cartão de crédito. Enquanto isso, a Worldpay lançou seu Global Payments Report com dados sobre as tendências que estão transformando os pagamentos em 42 mercados globais. Também avançaram as discussões sobre a regulamentação das stablecoins no Chile, com apoio do FMI.
O Banco Central do Brasil publicou a Instrução Normativa nº 736, que atualiza o marco regulatório para o reporte de operações com criptomoedas no mercado de câmbio. A norma amplia o escopo da regulamentação para incluir explicitamente operações realizadas com cartões e por plataformas que utilizam ativos virtuais, um dos principais mecanismos utilizados pelas exchanges para ampliar o uso de ativos digitais.
A mudança tem como objetivo harmonizar a redação da Instrução Normativa BCB nº 693, de 2025, com a Resolução BCB nº 521, publicada no mesmo ano, que inseriu os ativos digitais no mercado de câmbio. Em termos concretos, a atualização substitui a expressão "pagamento ou transferência internacional mediante transmissão de ativos virtuais" por "pagamento ou transferência internacional com ativos virtuais".
Embora seja uma modificação textual, ela estabelece um marco mais preciso para as operações cotidianas com criptomoedas, incluindo aquelas realizadas por meio de cartões, um canal que vem ganhando relevância no Brasil.
O BC desmonta a tese de rivalidade entre Pix e cartão de crédito
O presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, foi a público desmentir uma ideia recorrente na indústria: o Pix não compete com o cartão de crédito. Segundo Galípolo, o sistema de pagamentos instantâneos ampliou a inclusão financeira da população brasileira, incorporando pessoas que antes estavam à margem do sistema financeiro e que, a partir desse acesso, também passaram a usar cartões de crédito.
Os dados do próprio Banco Central sustentam essa leitura: desde o lançamento do Pix em 2020, o volume financeiro transacionado com cartões de crédito no Brasil saltou de R$ 332,9 bilhões para R$ 824,7 bilhões em 2025. Longe de se canibalizarem, os dois instrumentos cresceram em paralelo.
Para a indústria, a mensagem é relevante: ampliar o acesso aos serviços financeiros gera demanda por mais produtos financeiros, não apenas por um.
A indústria de pagamentos consolida suas tendências
A Worldpay lançou a edição 2026 do seu Global Payments Report, com uma análise das tendências que estão transformando os pagamentos em 42 mercados globais. O relatório confirma que as carteiras digitais são o principal método de pagamento no mundo: representaram 56% do valor global de e-commerce e 33% do valor transacionado em pontos de venda em 2025, com marcas como Alipay, Apple Pay, Mercado Pago e PayPal liderando esse movimento.
Nos pontos de venda físicos, os aplicativos de pagamento, incluindo carteiras digitais, soluções BNPL e pagamentos A2A, representaram 37% do valor transacionado globalmente em 2025, frente aos 63% representados pelo dinheiro em espécie e pelos cartões físicos. No entanto, projeta-se que essa proporção se inverterá: até 2030, os aplicativos de pagamento devem alcançar 46% do valor no PDV, com crescimento 135% mais acelerado do que o canal físico tradicional.
Um dos dados mais expressivos do relatório é o avanço das criptomoedas por meio de infraestrutura tradicional: o gasto com cartões cripto emitidos pela Visa cresceu 525% em 2025, enquanto os cartões vinculados a stablecoins movimentaram US$ 4,5 bilhões, um crescimento de 673% em relação a 2024. Para a América Latina, o relatório destaca que a Argentina registra a maior taxa de uso de QR Codes para pagamentos móveis em loja do mundo: 84% dos usuários que pagam pelo celular utilizam essa tecnologia.
As carteiras digitais dominam 55% das compras online na Argentina
O Global Payments Report 2026 da Worldpay revela também que as carteiras digitais já representam 55% das compras online na Argentina, e seu crescimento se estendeu ao comércio físico, impulsionado pelo uso massivo de QR Codes e transferências instantâneas.
O relatório aponta ainda que 84% dos consumidores argentinos que pagam pelo celular em lojas utilizam o QR Code, a maior taxa registrada no mundo, superando inclusive a China. Isso posiciona a Argentina como uma referência global em adoção de pagamentos digitais no ponto de venda.
Além do dado pontual, o relatório reforça uma tendência estrutural: as carteiras digitais deixaram de ser um canal alternativo e passaram a ocupar uma posição central na experiência de pagamento dos consumidores, com crescimento acelerado tanto no ambiente online quanto no físico.O Chile prioriza a regulamentação das stablecoins com apoio do FMI
O Banco Central do Chile definiu a regulamentação das stablecoins como prioridade de sua agenda, em um processo que conta com o respaldo técnico do Fundo Monetário Internacional. O objetivo é estabelecer regras claras de liquidez que protejam os usuários e mitiguem riscos para a estabilidade financeira do sistema.
O movimento do Chile se insere em uma tendência regional mais ampla: vários países da América Latina estão avançando em marcos regulatórios para ativos digitais, impulsionados tanto pelo crescimento do uso de stablecoins quanto pela pressão de organismos internacionais que buscam evitar lacunas legais em um mercado em rápida expansão.
A definição do Banco Central chileno é um sinal claro para a indústria: as stablecoins deixaram de ser um fenômeno de nicho e passaram a ser um tema de política financeira, com regulamentação a caminho nos principais mercados da região.